sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Relato Pessoal: O Cinema na China

Não é novidade para ninguém que um governo totalitário como o chinês, sob as rédeas firmes do partido comunista há 60 anos, exerça o seu poder de censura também sob a sétima arte. Independente de concordarmos ou não com a censura do governo chinês, foi inevitável para mim, como expatriado em Xangai durante 2 anos, notar que em termos de conhecimento e cultura a população chinesa (e, por tabela, o crescente grupo de expatriados) é amplamente prejudicada, mesmo em cidades cosmopolitas como Xangai.

Os censores chineses escolhem 20 filmes estrangeiros ao longo do ano para serem exibidos nas poucas salas de cinema da China. Portanto, os filmes estrangeiros que chegam ao cinema chinês são grandes “blockbusters”. Bons exemplos são os filmes do Homem-Aranha, “Missão Impossível III”, que foi filmado em Xangai, e “Mr. Bean – O Filme”. Muitos desses filmes acabam sendo lançados muito depois de serem exibidos na maior parte do mundo e de serem largamente comercializados em DVD, original ou falsificado. “Anjos e Demônios”, filme baseado no livro de Dan Brown, até o presente momento não chegou nos cinemas chineses. Essa demora em geral ocorre em decorrência da análise meticulosa que os censores chineses fazem dos filmes, editando-os (como foi o caso do próprio “Missão Impossível III”, “007 Cassino Royale” e tantos outros) ou proibindo a distribuição de certos filmes pelos motivos mais aleatórios, ainda que seja notado o repúdio do governo chinês a atos de violência extrema, à homossexualidade e à pornografia (ou mesmo o nudismo sem fins eróticos). “Os Infiltrados”, filme de Scorsese que venceu o Oscar de melhor filme em 2007, é um exemplo de filme proibido de ser exibido por conter conteúdo violento, assim como “Piratas do Caribe – O Baú da Morte” que tinha o canibalismo como agravante, ainda que “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo” tenha sido exibido. Essa proibição tem até base lógica, já que na China não há classificação etária para os filmes. O que nunca consegui compreender é o porquê da não existência de classificação etária.

Todo esse descaso com uma arte de tamanha relevância como o cinema traz, inevitavelmente, diversas consequências. Xangai, com sua enorme população que inclui muitos estrangeiros, possui poucas salas de cinema que passam, em sua maioria, filmes chineses. Imagine as cidades do interior. A necessidade de ver outros filmes alimenta o mercado de DVDs “piratas” que custam, em média, 10 yuan, o equivalente a cerca de 3 reais. Filmes pirateados são vendidos em qualquer lugar imaginável em Xangai, através de ambulantes ou de lojas especializadas, que tem a aparência de locadoras que, inclusive, não existem na cidade já que a pirataria é consumida pela grande maioria dos chineses e estrangeiros. O sucesso, se justifica até pelos preços dos ingressos para esses poucos cinemas, que é altíssimo, muito mais caro do que um filme pirateado. Os DVDs originais demoram a sair quando se trata de filmes recentes, é bem mais caro e vendido em poucos lugares. A oferta de filmes que não podem ser vistos no cinema nessas lojas, ofusca qualquer brilho que o cinema chinês pudesse ter, então a proibição configura-se como um ato que prejudica também, o cinema do país, que já não tem muita tradição exceto por cineastas como Ang Lee, que é profundamente odiado pelo partido comunista. Quanto à mentalidade da população, o interesse no cinema é simplesmente desmotivado. O conhecimento sobre o cinema é limitado, visto que filmes não americanos não são comuns. “Adeus, Lênin”, um bom filme alemão, era um dos poucos que via com frequência nessas lojas de DVDs.

Esse aspecto da censura chinesa é apenas uma pequena parte de um debate muito maior que se estabelece acerca do quão aceitável é o autoritarismo do governo chinês, em contraste com os diversos êxitos alcançados pelo partido comunista ao longo dos anos, principalmente a partir da era Deng Xiaoping, pós Mao Tse Tung.

Um comentário:

  1. Fiquei bastante surpreso com o que li sobre a bizarra realidade cinematográfica chinesa. Certamente nunca me questionara sobre a real censura, tao alienante, na China. Pergunto-me se as classes abastadas se contentam com o que lhe (e)ditado e a causa de sentirem-se satisfeitos com o pouco que lhe é atribuído.
    Entorpecedor.

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